Blacklight e rastreadores

O Blacklight é uma iniciativa conduzida pelo The Markup que funciona como um monitor de rastreadores em tempo real. Neste contexto de capitalismo de vigilância em que vivemos, saber quem está te rastreando é muito importante.

Um site que visito com frequência e que sempre me importuna com uma série de notificações é o dO Tempo, jornal daqui de BH. Resolvi fazer um teste de como o Blacklight enxerga o portal e olha no que deu:

Não é pouca coisa, não. 🙁

Santander: muito a aprender

O cenário bancário nacional foi revirado nos últimos anos com a chegada de empresas como Nubank. Ainda assim, os bancos que antes operavam sem muito o que temer em termos de concorrência continuam praticando ações que são, no mínimo, questionáveis.

Vejam esta “iniciativa” do Santander (banco que provavelmente deixarei de usar nos próximos meses): Eles enviam mensagens diárias sobre os mais diversos assuntos relacionados a minha vida e atividade financeira. De investimentos ao programa de pontos chamado ESFERA (diga-se: sobre este programa a única coisa que eu consegui fazer foi transferir meus pontos para outro programa e vender milhas)… Por si só, uma prática que incomoda. Ainda mais quando, como é o meu caso, eu não autorizei e nem solicitei o envio de mensagens.

Mas isso não é o ponto crítico. A questão é que não há como optar por não receber mensagens na própria mensagem. Veja como o banco busca ativamente dificultar a vida de quem quer optar por não recebi as mensagens:

Veja no rodapé, em vermelho, a instrução de que você deve acessar o Internet Banking e acessar as opções de dados cadastrais para tentar remover seu endereço.

O ideal seria um link direto em que, quando o usuário clicasse, tivesse seu endereço removido da base. Mas é claro que o banco não quer isso.

Enfim, o usuário, se quiser tentar remover seu e-mail da base deles, precisa ir pro site. Não dá para fazer pelo app, muito embora eles propaguem por aí que pelo app no celular você pode fazer tudo. Bem, obviamente não dá para fazer o que não interessa ao banco.

Tudo bem, fui pro site, entrei no meu perfil e escolhi a opção de gerenciar o e-mail. Minha intenção era excluir o endereço definitivamente da base deles. Para a minha surpresa, meu cadastro já indica que eu não quero receber mensagens deles, conforme pode ser indicado abaixo.

Optei por excluir meu endereço.

Insisti em tentar excluir o endereço e, nova surpresa: não é possível.

Você precisa ter um e-mail cadastrado com eles.

Moral da história. Se você tem uma conta no Santander, precisa se resignar que não vai poder gerenciar o recebimento de mensagens promocionais deles. E não vai poder deixar de ter um endereço cadastrado lá.

A solução? Bem, já uso o Gmail para as contas que eu nem penso em usar (é o meu endereço de spam). Marquei que tudo que vier do Santander é indesejado (SPAM). Espero que não mais seja importunado. As mensagens vão bater no Gmail e cair na caixa de SPAM antes de serem redirecionadas para o endereço que eu efetivamente uso.

Vale reforçar que esta não é uma questão de simples reclamação de um usuário insatisfeito. É uma demonstração de que velhas práticas insistem em ser adotadas por parte de empresas. Além disso, velhas práticas carregadas de péssimas intenções e o desrespeito total aos desejos e necessidades dos usuários.

O dia que o Yelp me pregou uma peça

Ontem foi aniversário de um amigo e eu quis presenteá-lo com uma garrafa de Bordeux. 

Lembrei-me que havia na cidade uma loja de vinhos especializada em rótulos franceses. Ao sair do trabalho de manhã, fiz uma busca e, antes mesmo do primeiro resultado, havia um belo snippet do Yelp indicando a localização da loja. 

“Mão na roda!” foi o que pensei. 

Como é bom viver no futuro, né?

Na hora coloquei o endereço no GPS e pus-me a dirigir para o shopping onde compraria o presente.

Chegando lá, rodei os três andares do shopping e nada de encontrar a loja. Perguntei para o segurança e ele nem sabia do que eu estava falando. Aproveitei a minha estada no shopping e acabei comprando outras coisas. Numa das lojas que entrei, perguntei para a vendedora, que também fez cara de charada. Uma outra pessoa que estava comprando na loja até arriscou dizer que era um restaurante, não uma loja de vinhos. Para a minha infelicidade, ela também estava errada.

Comprometi minha hora de almoço procurando o presente. Problema de primeiro mundo, eu sei. 

Mais tarde, acabei comprando o presente em outra loja de vinhos da cidade. Mas aquilo me deixou inquieto. A loja certamente fechou mas muita gente pode estar sendo levada a um local fantasma pelo Yelp. Isso sem contar nas vezes que o GPS (estou falando de você, Waze) nos leva para um lugar que já não existe mais. 

Não tenho o Yelp instalado em meu telefone e não sei se é possível indicar que algum estabelecimento fechou. Tenho o Waze e sei que não consegui fazer este alerta quando fui levado a uma loja que não mais existe. Talvez até exista esta função. Mas eu não a encontrei. Creio, no entanto, ser bem provável que esta função não existe. Afinal, se isso fosse possível, já teria um monte de gaiato apagando os concorrentes do mapa, né?

De qualquer forma, acho que o empreendedor (ou quem cuida de sua presença digital) deve ser responsável por isso. É uma questão importante. Não dá pra negar. Acho que o exemplo em questão ajuda na argumentação acerca da importante necessidade de controlar os dados sobre os nossos negócios (ou os negócios de nossos clientes) na internet.

Precisarmos conversar sobre estas vagas em Comunicação

No Facebook eu mantenho um grupo para a pós em Comunicação Digital (curso que coordeno). Neste grupo eu costumo postar ofertas de empregos das diversas agências que sigo naquela plataforma.

Um dia eu postei uma vaga e a postagem proporcionou uma bela discussão. Resolvi publicar o que se concluiu da discussão aqui porque acredito que este tipo de conteúdo não merece ficar confinado no Facebook onde muita gente jamais vai ver. Acredito que muita gente precisa ver isso.

Os proprietários de agências de comunicação e de empresas que contratam profissionais de comunicação precisam ver isso.

Como disse, tudo começou com a postagem de uma vaga.

O primeiro comentário que apareceu foi de um membro da comunidade do curso dizendo que, com aqueles requisitos e remuneração, a vaga chegava a ser ofensiva.

Ele tem total razão. Chega a ser ofensivo. Achei muito bacanas as ponderações dele. Não discordo de forma alguma que as coisas deveriam ser diferentes. Foi aí que me pus a pensar: Quem sabe este tipo de oferta represente um sintoma de algo mais grave? Será mesmo que a pessoa que fez a descrição desta vaga tem o domínio do que envolve cada uma das atividades? Será mesmo que a pessoa que será contatada terá todas estas atribuições? Será que esta pessoa existe?

Com estas questões em mente, acho que a nossa abordagem poderia ser a seguinte:

Não devemos recusar participar de processos como este. Acho que pelo contrário. A gente tem que participar e tem que tentar, de alguma maneira, mostrar que às vezes são atividades que não fazem parte do mesmo pacote ou que, se fizerem, demandam um investimento maior por parte do contratante.

Acredito que este sintoma demonstra que muita gente não sabe nada ou sabe muito pouco do que envolve o trato em comunicação digital e, claro, em marketing digital também. 

É o que falo em sala de aula na disciplina de Cibercultura. Tem muita gente que faz o que se costuma chamar de Marketing Digital e na real não tem o domínio ou mesmo a noção das atividades que estão envolvidas nisso. 

Entendo que isso pode ser a consequência de uma área em que muitos aventureiros se desbravam e que se desenvolveu meio que “nas coxas”. Isso é muito ruim e traz como consequências estes sintomas que a vaga representa. 

Acontece. Mas a gente pode tentar mudar, mostrando que a coisa não necessariamente é bem assim. Que tal? Confesso que no dia que argumentei isso eu estava com um olhar bastante positivo sobre a coisa toda.

De qualquer forma, eu tento fazer isso como posso. Uma delas é por meio da capacitação de profissionais no curso de Comunicação Digital; tento fazer isso da melhor maneira que consigo. Mas entendo que talvez precisamos fazer mais.

Confesso que tentei antes também via podcast (o Ainda Sem Nome era uma iniciativa nesse sentido). Talvez seja necessário algo além. 

O aluno me respondeu dizendo algo que, novamente, é bastante compreensível. De acordo com ele, suas aventuras por esse meio já datam de mais de ano e não tem dado um bom retorno. Ele reporta na prática algo que falo em sala há tempos: sobra trabalho / falta emprego. Freelancers até conseguem sobreviver, mas à duras custas. Ele relata que os empregos costumam ter descrições como esta, indicando grande demanda de expertise e baixa remuneração (em outras palavras: exploração).

Ele ainda acrescenta:

Fora o leilão inverso que tem sido as vagas que dizem “favor informar pretensão salarial”… eu até desanimo… Pra mim sempre soa como um leilão ao contrário, algo como “quem topa por menos?

Pow… a gente rala pra caramba pra ter uma visão global da comunicação digital, se especializa… tira certificações, procura cursos online que complementam a formação e se depara com uma vaga dessas, eu sinceramente, não me submeto a perder um dia produtivo pra ir fazer uma entrevista de uma vaga só pra dizer que o que eles estão pedindo não condiz o que eles estão oferecendo…

E, repetindo pela, sei lá, quinta vez: ele tem razão. A galera que anda postando estas vagas parece estar muito fora da realidade. Ou então (minha aposta mais positiva) não tem a menor noção do que se trata comunicação digital.

Claro que há que se considerar que a prática da contratação por PJ ajudou muito a reforçar este esquema precário de trabalho. O salário oferecido por esta empresa está até dentro da faixa de salários para um Analista de Marketing JUNIOR, deve-se ressaltar. Tudo bem que está lá na parte inferior do gráfico. Críticos podem usar este argumento para tentar desconstruir a questão. No entanto, é importante que se considere que os valores referem-se a salários de analistas JUNIOR e que a lista de demandas de expertise não são 100% compatíveis com isso.

Mas qual seria a solução?
Eu tenho pra mim que é preciso educar as pessoas. Educar os clientes e os contratantes. Digo isso porque, na lógica do leilão reverso que que o aluno falou (que infelizmente é a prática), a empresa acaba se dando mal, pois o profissional que se dispõe a encarar isso está numa situação de desespero financeiro total ou então não tem noção do que vai enfrentar. 

No primeiro caso, o portifolio construído o tirará da empresa rapidamente. No segundo caso a empresa corre sério risco de se dar mal. E aí será um aprendizado a duras penas.

Talvez, atuar neste mercado seja uma aposta de médio e longo prazo; até que este aprendizado contemple mais empresas.

Ai, como se não bastasse, dias depois chega essa vaga:

Imagino que depois de ler a proposta você tenha tirado uns minutos para se recompor. Outro colega do grupo se manifestou prontamente:

deixa ver se entendi, tem que gravar e editar vídeos, fazer social media, seo e wordpress?

É de lascar.

Bastante complicado isso de ficar exigindo mundos e fundos em termos de expertise e diferenciais e pagar 2 salários mínimos (ou às vezes nem isso). O fato é que as pessoas precisam aprender (ou cair na real). Não existe profissional mágico que vai saber editar vídeo, dominar Ruby on Rails e ser fera em técnicas de SEO. Este camarada simplesmente não existe. Tem gente que tem noção destas três coisas? Claro! Mas não existe o profissional proficiente nestes assuntos (ou outros três que sejam tão distintos quanto).

Das duas, uma: ou profissional que tem todas estas capacitações simplesmente não existe ou, se existe (vai que, né?) ele demanda um salário muito maior do que você está disposto a pagar. Fato.

Ah, Caio. Mas nessa última vaga nem tem o valor do salário! Vai que é um baita ordenado?

Duvido. E, parafraseando Julinho, digo mais: se você está abrindo uma vaga e não faz ideia de qual deve ser o salário da pessoa que vai trabalhar, há algo de muito errado acontecendo. Falo isso com (propriedade, hehe) relação aos pedidos de pretensão salarial. Pedir pretensão salarial é contraprodutivo! Coloque o valor do salário que você está disposto a pagar; muito melhor do que ficar fazendo profissionais perderem o tempo deles colocando pretensões que você não consegue pagar. Como o colega disse, fica com aquela impressão de leilão reverso que apenas prejudica quem se envolve.

Pois bem. Apesar de tudo, eu acho que a ficha está pra cair. As pessoas estão para entender que Comunicação Digital é mais do que postar uma vez por dia no Facebook e também que fazer comunicação digital demanda uma série de expertises que não necessariamente estão todos reunidos numa única pessoa. Eu tenho pra mim que este aprendizado vai acabar chegando a mais gente. Sei lá. Hoje eu estou otimista como estava no dia em que postei a conversa no grupo.

Notícias sobre Publicidade em Português do Brasil

Se você curte ou se interessa pelo universo da Publicidade e Propaganda, acabo de criar um canal no Telegram que pode ser bem legal para você acompanhar. O canal se chama Notícias sobre Publicidade em Português do Brasil e reúne fontes interessantes sobre o tema.

Se você quiser acompanhar, basta ter o Telegram instalado. Sei que para muitos isso representa mais um app em seu telefone, mas, vá por mim: vale a pena. Por enquanto, o canal está com seis fontes de notícias:

  • Clube de Criação
  • ADNews
  • PropMark
  • Comunicadores
  • Meio & Mensagem
  • Blue Bus

Se você tiver mais alguma sugestão de fonte de notícias sobre Publicidade em PT-BR, basta me falar que eu adiciono ao canal.

Mas, Caio, qual a vantagem disso?

É simples! Se você gosta de um assunto, provavelmente você deve seguir algumas publicações especializadas sobre esse assunto em plataformas sociais, né? Só que o negócio destas plataformas é justamente o de impedir que todo mundo que curtiu alguma coisa de receber notícias sobre essa coisa (forçando, assim, o dono da publicação a ficar “impulsionando” e comprando mídia na plataforma). 

Ou seja. Por mais que você goste de Publicidade e siga estas mesmas fontes que eu listei acima no Facebook, por exemplo, chances são que você vê, no máximo 10% do que eles postam.

No canal que criei no Telegram, você vai ver tudo o que cada um destes sites publica. Sacou?

Te vejo !

A questão da extrema informalidade dos profissionais de Publicidade

Então.
(ultimamente tenho começado muitas frases e até e-mails assim…)

Há um bom tempo tenho falado (às vezes sozinho, outras, acompanhado) que falta profissionalismo na publicidade. No digital, nem se fala.

Mas, mesmo já abordando este tema há tempos, a questão persiste. Em sala de aula isso me afeta e incomoda quando alunos (publicitários em formação) deixam trabalhos para serem feitos na última hora, pedem adiamento de prazos e acabam entregando produtos que poderiam ter ficado muito mais bacanas se alguns cuidados básicos tivessem sido tomados.

Profissionalmente vemos jobs sendo perdidos, pagamento abaixo do mercado e vários outros comportamentos que afetam negativamente a imagem dos publicitários…

Peraí, Caio. Você também já foi aluno! Pega leve…

Pois é. E também já procrastinei muito e entreguei muita coisa abaixo da crítica. Mas aprendi que se eu quisesse ser levado a sério, precisava me levar mais a sério.

E é esse excesso de pedidos para “pegar leve” que configura um dos sintomas que quero tratar. Pode parecer papo de velho (e é), mas encarar-se com mais seriedade e também as nossas atividades com mais seriedade pode fazer toda diferença.

Eu acho que o ambiente da universidade é um bom lugar para tentar corrigir este comportamento. Especialmente porque é, justamente depois que se forma, que o profissional começa a adotar algumas práticas que podem ser muito ruins para ele na sua atuação profissional.

Vamos começar com a questão da disciplina para executar trabalhos

Então. Como eu falei acima, é muito comum que os alunos entreguem trabalhos feitos na última hora. Costumo brincar que, se o trabalho é para ser entregue às 23:59, o aluno começa a fazer às 23:30. Isso depois de ter tentado um e-mail pedindo mudança de prazo às 23:15 e não ter obtido resposta até as 23:29.

Brincadeiras à parte, a questão é que se entrega, normalmente, um texto ou uma peça que foi a primeira coisa que se conseguiu fazer. Ou seja: faz-se uma versão e boas. Está entendido que está pronto para entregar.

Só que não é bem assim. Normalmente a primeira versão de uma coisa contém vários erros e está longe de ser a melhor versão daquilo. Escrever um texto ou conceber uma peça é uma atividade que demanda o exercício da criação. E este exercício não se dá num único sprint. A atividade de fazer, dar um tempo, olhar outras coisas e retomar a atividade faz com que a gente tenha uma outra visão sobre aquilo que fez. Além disso, proporciona um distanciamento que nos ajuda a encontrar erros.

Pois bem, mas como fazer isso, Caio?

A primeira coisa é não deixar para fazer na última hora. Comece a fazer a tarefa (pode ser a criação de um layout, a redação de um texto, enfim… qualquer coisa) com antecedência. Pense e planeje-se de forma a poder trabalhar por mais tempo naquela tarefa. Vai por mim. Se você começar a fazer qualquer atividade no momento em que ela foi designada a você, dificilmente você precisará ficar atravessando madrugadas fazendo algo perto do fim do prazo.

E atravessar madrugadas é algo que muitos profissionais da publicidade se vangloriam de ter que fazer. E eu tenho verdadeira raiva deste comportamento. Ninguém precisa trabalhar até de madrugada se planejar bem aquilo que tem para fazer. Me dá especial raiva porque eu já deixei isso me atrapalhar muito.

Se você planeja bem a execução de um trabalho, menos horas extras serão necessárias e menos madrugadas serão comprometidas. Além disso, você terá tempo para rever o que fez e melhorar os produtos que está criando. E isso vai ser muito bom para a qualidade final daquilo que estiver fazendo.

Outra coisa: dê-se o valor

É muito comum esse lance de fazermos as coisas de última hora, porque não nos deram prazos bacanas para executar a tarefa. Quando for este o caso, um sinal de que você está dando valor a si mesmo é não aceitar fazer naquele prazo tão pequeno.

É comum os profissionais aceitarem fazer isso porque não querem “perder o cliente”. Só que, ao fazer algo com tão pouco prazo, a qualidade final vai ser péssima e você vai perder o cliente da mesma forma, só que, desta vez, porque o trabalho ficou ruim. E aí, a culpa não vai ser do prazo (afinal, você aceitou fazer), sacou? A culpa vai ser sua.

Aceitar fazer uma coisa num prazo desumano é não se dar o valor. É não se respeitar. Outra coisa que entra no montante da falta de respeito é aceitar fazer reuniões fora do expediente (porque esta é a hora que o cliente pode te receber). Uma coisa que eu aprendi num dos melhores lugares que trabalhei foi: se o cliente não quer te receber durante o expediente, é porque ele não acha que comunicação é uma coisa importante pra ele. Esse já é um sinal de que ele não vai te respeitar e nem respeitar o seu trabalho.

Faz parte deste bolo do respeito a si mesmo e ao seu trabalho também parar de participar de “concorrências”. Na comunicação isso é muito comum. E é péssimo para os profissionais. Empresas chamam três ou cinco profissionais ou agências e pedem que executem algo para, só depois, escolher o que acharam melhor. Estas “concorrências” (as aspas servem para indicar que são falsas concorrências, sem critérios claros e nem sombra do que lembraria um edital) são muito ruins para o negócio da comunicação, porque acabamos trabalhando de graça (outro sinal claro de que não nos damos valor como profissionais é quando nos deixamos ser enganados assim). Não há problema nenhum em trabalhar de graça, desde que seja por vontade própria (por exemplo, se você quer fazer a comunicação de uma ONG sem cobrar nada). O que é péssimo é a agência ou profissional se deixar levar fazendo isso corriqueiramente.

Pense como seria isso em outras profissões. Você, por acaso, vai ao dentista e, na consulta, fala que também vai a outros dois profissionais e, só vai pagar pelo serviço de quem “achar que é o melhor profissional”? Claro que não, né? O dentista não oferece consulta gratuita e muito menos o médico. O arquiteto não faz projeto “no risco” e o engenheiro também não. Mas porque os publicitários fazem coisas assim? Eu arrisco dizer que é porque eles não se levam a sério e não se dão o valor.

Por fim, um último comportamento que me dá nos nervos e que é um sintoma desta desvalorização é o fato de apresentar três versões de uma peça pro cliente escolher. Acho isso o fim da picada. Nada errado em fazer três versões e até levar para a apresentação para ter algo na manga caso a apresentação daquela peça que você achou a mais apropriada, der errado. Mas já mostrar de cara três versões (de uma marca, por exemplo) para o cliente escolher é, pra mim, um atestado de incompetência. É algo como dizer “toma, olha essas três opções e me diga qual a que mais gostou, porque nem pra isso eu sirvo”.

Para me ajudar a explicar, novamente faço comparação com o trabalho do médico. O médico mostra três versões do diagnóstico para a gente escolher qual é o melhor? Não, né? O que ele oferece, quando é possível, são opções para o tratamento. Mas ele não as apresenta de cara pra que façamos uma escolha. Ele mostra aquela que julga ser a mais adequada e, depois, se for possível, fala que existem alternativas e, cada uma delas tem seu ponto positivo e ponto negativo. Todas as vezes que me vi nesta situação com um médico, ele me disse que a primeira opção tinha uma justificativa bem plausível. E me apresentava o embasamento para aquela escolha.

Acontece que em mais de 90% dos casos os publicitários não tem o embasamento para justificar sua escolha e recomendação. É tudo baseado no achismo e no gosto pessoal. Daí, o cliente acaba achando que se é algo baseado no gosto pessoal, ele , por ser dono do negócio, entende mais e tem o “gosto mais apurado”. Aí, meu amigo, ferrou. Quando chega a esse ponto, o publicitário ou a agência vira apenas manobrista de layout; aumentando a marca e “chegando o texto mais para a direita”.

O fato é que, na maioria esmagadora das vezes, o publicitário não sabe argumentar como aquilo que ele fez vai resolver o problema do cliente. O publicitário acha que defender um conceito é uma questão de “lábia”. Isso porque ele não sabe. Porque ele não fez pesquisa. Por que a sua proposta não tem substância. Aí, acha que tudo é na base do “Rolando Lero”.

E sabe por qual motivo que o publicitário não tem argumento ou substância para defender sua escolha? Acertou, porque ele começou a fazer aquela peça meia hora antes de apresentar pro cliente. Aí, não deu tempo de fazer pesquisa (te dizer que faz muito tempo que vi uma proposta de ação de publicidade efetivamente baseada em pesquisa). Não deu tempo de embasar as escolhas. Não deu tempo de nada. Depois, claro, não dá pra reclamar.

E voltamos a questão inicial. O meu ponto é: enquanto isso persistir, publicitário vai ser tratado do jeito que é. E eu acho que a origem destes problemas é justamente porque ele não se respeita e não faz as coisas com seriedade.

Claro. Tem aqueles que preferem trabalhar de madrugada e também os gênios que fazem uma versão perfeita logo na primeira tentativa. Mas estes são pontos fora da curva. O normal mesmo é termos o comportamento que mina o sucesso da atividade. É a participação em “concorrências” e o trabalho executado sem pesquisa, feito de forma tocada, na última hora. Enquanto estes comportamentos forem tratados como a normalidade, também os publicitários e as agências continuarão sendo tratados como são.

Talvez isso não seja uma causa direta, mas minha leitura é a de que, de certa forma, interfere, sim, no jeito que as pessoas externas à profissão lêem os publicitários.

Enfim… Essa é a minha questão, na verdade a minha preguiça, com essa extrema informalidade dos publicitários.