Hoje pela manhã vi este post do Atila Iamarino no Twitter:

O Atila tem sofrido bastante na batalha contra a desinformação e senti nesta postagem dele um tom de desânimo.

Não jogue a toalha, Átila! A questão é complicada. Mas, graças a esforços como o seu, aos poucos, mais pessoas vão se juntando e o combate contra a desinformação cresce a cada dia. Não é o suficiente, é claro; nem tampouco a única coisa a fazer para minimizar os impactos das ações de desinformação. Para que isso funcione a contento, precisamos que as próprias plataformas sociais comprem a questão de verdade. Só que isso está longe de acontecer.

Para tanto, vamos tentar compreender melhor um cenário mais amplo, que acaba colaborando para este crescimento e o sucesso das ações de desinformação. 

I – O modelo de negócio

As plataformas sociais como o Facebook e o Twitter têm o seu sustento na venda de publicidade. Tal qual na mídia de massa, quanto maior a audiência, maiores os investimentos em publicidade. Nesse sentido, uma coisa precisamos considerar: estas plataformas não têm um interesse genuíno em acabar com a desinformação, com os robô e com os perfis falsos. Quanto mais robôs, maiores serão os números que os departamentos comerciais das plataformas mostram para os anunciantes na dança da venda de espaços publicitários. 

Dessa forma, as plataformas apenas atuam de maneira meio-efetiva com relação aos robôs e perfis falsos quando algo muito grave aparece. Do contrário, é uma política bem conhecida: a de se fazer “vista grossa”. As plataformas fingem quem não enxergam o que está na cara.

II – Números inflados ajudam a fazer a máquina funcionar

Você pode se perguntar o que – além de ajudar a argumentar sobre a venda de publicidade – pode ser benéfico para as plataformas nessa atitude. Uma possível explicação é a de que os perfis falsos / as fazendas de robôs e correlatos acabam alimentando uma coisa que cresce com a nossa participação. As pessoas médias / normais não identificam de cara quando uma discussão é artificial, quando uma hashtag está sendo manipulada ou quando há uma fazenda de robôs em ação. A gente vai lá e interage com eles. 

A gente responde. A gente discute, enfim… A gente acaba fazendo o que estes perfis falsos publicam reverberar junto aos nossos seguidores. E isso faz com que o assunto vire pauta. E, ao virar pauta de discussão, a “máquina” ou o conjunto de algoritmos que fazem as plataformas funcionarem como elas funcionam, acabam por entender que aquilo é interessante. E aí vão mostrar aquilo para mais e mais pessoas. Ao fazerem isso, mais e mais publicidade acaba sendo exibida e, lógico, as plataformas faturam. 

Então, as plataformas acabam por fingirem que o problema não existe, pois isso as beneficia. E esse é o ponto que me ajuda a dar uma conclusão ao argumento de que as plataformas não querem que este cenário mude. 

Se assim fosse (ou seja: se as plataformas quisessem atuar de maneira clara e objetiva para mitigar a desinformação), uma coisa a fazer seria atestar que não pudessem ser criados perfis falsos / fantasiosos ou com pseudônimos. 

III – Plataformas sociais não precisam ser o lugar do anonimato

A argumentação de que algumas pessoas precisam de pseudônimos não convence porque estas plataformas não foram feitas para isso. Se alguém precisa vazar algum tipo de informação que vai colocá-la em risco por fazer isso, há uma série de outros espaços para fazê-lo. O Twitter não seria o lugar disso. Acaba sendo porque qualquer um pode criar uma conta com um pseudônimo e publicar o que quer. 

Perceba. Minha questão não é com o fato de a gente poder publicar o que quiser. Isso é muito bacana nas plataformas sociais. O problema é isso conjugado com a possibilidade de criarmos múltiplas contas. Dessa forma uma pessoa pode, por exemplo, criar um perfil falso e difamar outra pessoa. A conjugação de um ambiente de criação de perfis livre e a possibilidade de podermos falar o que quisermos abre flancos para este (e outros) tipo de abuso.

Obviamente há modos de chegar até estas pessoas. Mas isso é moroso e em boa parte das vezes as pessoas que são vítimas de uma ação de difamação nem levam o processo adiante. Isso proporciona uma sensação de impunidade para quem comete tais atos. De igual forma para as pessoas que criam ações coordenadas de desinformação. O processo para chegar até elas e responsabilizá-las por suas atitudes é moroso e não costuma dar muito efeito. É como enxugar gelo. 

Aí, o cenário que se constrói é o de que as plataformas são terra sem lei. Isso acaba por encorajar pessoas a trabalharem com a desinformação mesmo em perfis que sejam verificados, como vemos com alguns parlamentares e ocupantes de cargos do poder executivo em nosso país. A coisa vira uma bola de neve. Entendo que uma maneira efetiva de tentar minimizar isso seria as plataformas identificarem verdadeiramente quem é o dono de cada perfil. Isso faria o processo de responsabilizar pessoas que cometem atos de difamação e disseminam desinformação mais fácil. Por consequência seria mais eficiente para proporcionar punição.

Só que a gente acaba por associar a questão da liberdade de expressão com isso de criarmos perfis falsos / pseudônimos. Uma coisa não tem muito a ver com a outra. A possibilidade de criarmos pseudônimos dá a cada pessoa o ferramental para criar, digamos milhares de contas falsas e manipular hashtags. A operação de fazendas de bots é corriqueira e muito danosa.

E isso nada tem a ver com a questão da liberdade de expressão. A gente pode ter a liberdade de expressão mesmo com mecanismos de identificação apropriados em operação. Repito: se você precisa tornar públicos fatos / informações / dados que, se o fizer identificando-se de forma apropriada isso pode te prejudicar ou prejudicar pessoas de sua família, o Twitter não seria o melhor lugar para fazê-lo. 

Acontece que, como disse lá no começo, a possibilidade de uma única pessoa criar dez, cem ou mil contas falsas é benéfico para a plataforma, que pode trabalhar estes números em suas argumentações de venda de espaços publicitários. Ademais, quando estas fazendas entram em ação, os diferentes algoritmos que operam nas plataformas usam as postagens para movimentar o espaço.

Para (tentar) concluir

Há algum tempo tenho argumentado que, embora estas plataformas de mídia social sejam privadas, elas acabaram sendo escolhidas pela sociedade e se transformaram em espaço de discussão pública. O Twitter, por exemplo, é observado continuamente e as reações que são enxergadas na plataforma acabam por pautar ações que impactam nas vidas de todas as pessoas. Um exemplo claro disso é o recente bate-e-volta de João Dória a Miami. Sua ida à cidade gerou tal celeuma (ostensivamente comentada na plataforma) que ele acabou por cancelar sua folga e voltar para o Brasil. 

Ou seja: embora nem todo mundo esteja no Twitter, o que acontece ali reverbera enormemente. A conversa que ocorre ali é relevante para tomadores de decisão. 

E, por mais que importantes pesquisadores do assunto tenham argumentado que as características destas plataformas não as qualificam para que as tratemos como esferas públicas de discussão, elas foram adotadas e são utilizadas como tal não obstante suas limitações.

Nesse sentido, entendo que elas precisam ser tratadas como algo que transcende um empreendimento privado para exibição de publicidade. Esta plataforma em questão (o Twitter) é uma adaptação da ágora. A conversa social acontece ali. Só que, quando a gente tem perfis falsos (entendendo aqui que estes são semelhantes, visto que não é possível identificar quem é a pessoa por trás de perfis que usam pseudônimos para, por exemplo, responsabiliza-las por suas postagens) na dinâmica da conversa, como saber se esta conversa não está sendo manipulada / artificialmente conduzida? E, se essa conversa acaba direcionando ações que impactam nas vidas de todos, aí a coisa fica séria.

Entende onde quero chegar? As plataformas se fingem de sonsas e as raposas aproveitam. Quem perde somos nós, nosso país e a democracia. Entendo que uma ação imediata e necessária seria a gente ter todo mundo usando perfis que efetivamente nos identifiquem. Quem sabe se a gente conseguir ter apenas, digamos, um perfil por CPF ou por CNPJ a gente consegue melhorar a dinâmica do que acontece nas plataformas?