Regulação das plataformas sociais. Um exemplo para provar o argumento

De uns tempos pra cá voltei a usar o Thread Center para postar fios no Twitter. E, como eu tenho uma política de apagar automaticamente o que posto naquela plataforma depois de alguns dias, tenho replicado o que posto aqui também. Afinal, é meu interesse que a gente consiga resgatar estas reflexões e conversar sobre elas. No Twitter isso, como sabemos, não é possível.

Enfim. A thread que replico aqui agora ocorre em momento oportuno. Há alguns dias ocorreu um engraçado fato com a Ana Maria Braga, que teve sua conta mimetizara por alguns perfis de pessoas engraçadinhas que quiseram fazer piada com alguma coisa relacionada ao Big Brother. Daí ela deu uma bronca e isso me incitou refletir sobre a coisa.  Esta reflexão vem logo abaixo. Antes dela, preciso apresentar outra publicação que é bastante importante que é a do episódio do podcast da Kara Swisher em que ela entrevista o Sacha Baron Cohen. Neste episódio, dentre outras coisas, a responsabilização do FB por muitas coisas que vem acontecendo na sociedade atualmente.

Então, já que foi dado o contexto, segue uma breve reflexão minha sobre – principalmente a chamada de atenção que a Ana Maria Braga dá mas, também, levando em conta o episódio que falei do Sway:

O problema não é apenas o Facebook. Precisamos (re)pensar todas as plataformas sociais e entender que elas tem responsabilidades, sim, com tudo o que está acontecendo com nossa sociedade.

Claro e óbvio que a responsabilidade não é apenas das plataformas, mas elas tem sim, grande carga de responsabilidade sobre este lodo de desinformação que vivemos. O que ocorreu recentemente com perfis “verificados” se fazendo passar por Ana Maria Braga e postando desinformação é sinal evidente da necessidade de pensarmos em uma forma que vá além do que as próprias plataformas fazem em relação à desinformação.

O fato de ter sido uma ação de piadas não faz a coisa ser menos desinformação, pessoal. Acordem com relação a isso!

Foi uma sorte ter sido “apenas” uma brincadeira por causa de um programa de TV. No entanto, o princípio é o mesmo. Embora parece que só quem não tem o selinho de verificação parece dar valor a ele, é importante observar este selo como uma mensagem da plataforma de que aquele perfil posta coisas válidas. Do contrário, qual o sentido da validação? Quando isso é subvertido, há uma série de sinais a perceber: 1) a validação é inócua; 2) a plataforma não faz um bom serviço indicando quem é ou não válido; 3) não há qualquer acompanhamento acerca do que os “validados postam”… Enfim. A lista cresce!

De qualquer forma, o que deve ser levado em conta é que estes espaços sociais em forma de plataformas precisam ser tratados de forma mais séria institucionalmente. Ficar apenas achando que as próprias empresas vão dar conta de regular é tapar o sol com a peneira.

Algumas reflexões sobre a necessidade de regulação de plataformas

Estamos lidando com constantes problemas de desinformação nas plataformas sociais. Em grande parte dos casos há a manipulação de temas e o reforço da distribuição de informações que não são verdadeiras por contas (ou fazendas de contas) falsas.

Não seria o caso de as plataformas efetivamente verificarem cada conta criada? Desa forma seria possível tratar a questão da atribuição da informação postada, identificando a conta (e a pessoa / entidade) que originou a postagem. De igual forma seria mais fácil entender quem efetivamente replicou a mensagem falsa.

Entendo que as plataformas sociais não devem ser mais os espaços para a criação de exércitos de contas robôs. Estes espaços estão sendo apropriados / tomados por atores políticos e institucionais por demais importantes para serem consideradas apenas espaços livres para se postar o que quiser sem maiores consequências. Penso que enquanto as plataformas não forem fiscalizadas para se implementar esta efetiva validação de contas, o problema tende apenas a piorar.

A regulação, nesse sentido, é muito mais que necessária para que nosso futuro não seja ainda mais complicado. A regulação passa, inclusive, pela necessidade de se ter um maior controle sobre a visualização das postagens.

A manipulação algorítmica em operação nas plataformas impede que seja acompanhada de forma apropriada a sequência de postagens das contas que ali operam. Precisamos ter acesso a mecanismos de controle efetivo de consulta, ordenamento e leitura destas postagens.

Não vejo forma de isso acontecer sem que as plataformas sejam efetivamente reguladas e forçadas a auditar as contas criadas, atribuindo a cada conta uma identidade única e vice-versa.

Ironia

Eu morro de rir do fato de que um dia a gente se iludiu achando que plataformas como o Twitter seriam a melhor maneira de manter um contato próximo e personalizado com uma audiência.

Este ideal foi demonstrado inválido quando se percebeu a manipulação algorítmica e a entrega limitada de informações pensadas para vender publicidade e impulsionamentos de postagens. Ao invés do contato próximo e alcance ampliado, as plataformas entregam feeds manipulados e formam bolhas que nos enganam e aprisionam.

Agora é a própria plataforma que oferece uma solução que usa a maneira que jamais deixou de ser a mais eficiente: o e-mail. E ainda paga de “inovadora”. Temos muito a aprender.

De onde vem o #BrasilSufocado?

Recentemente emergiu o movimento #BrasilSufocado. Os acontecimentos em Manaus parecem ter sido o estopim para tanto. A hashtag impulsionada por Luciano Huck rapidamente foi apropriada (ou será que a melhor forma de se referir a isso é “aproveitada”) para nomear um “movimento suprapartidário”. Via WhatsApp muitas pessoas estão encaminhando uma mensagem de chamado para organização em torno do tema:

Não dá para identificar de onde vieram as postagens originais com a chamada para a participação de forma fácil.

[Nunca é demais falar que o Facebook e o WhatsApp desempenham importante papel na disseminação de desinformação quando apensam apenas o sinal “Encaminhada” numa mensagem dessas. É de uma irresponsabilidade criminosa. Importante seria identificar a pessoa que postou isso pela primeira vez. Mas enfim, isso é assunto para outro post. Quem sabe nos próximos dias.]

De qualquer forma, uma coisa me chamou bastante a atenção: a expressão “movimento suprapartidário”. Como isso me deixou com a pulga atrás da orelha, dei uma olhada no whois do site do movimento, mas não foi possível descobrir muita coisa:

CLIQUE PARA AMPLIAR

Resolvi olhar um pouco mais a fundo e entrei em alguns grupos criados pelo movimento. Perguntei sobre a origem e quem encabeça o movimento.

Praticamente não recebi respostas a esses meus questionamentos. Quando muito, recebi interações como esta, abaixo, nos grupos:

Ou seja: parece ter mais gente querendo saber, mas ninguém informa e as conversas acabam se desviando. A origem do movimento e quem está por trás dele não são informações que temos. A dinâmica de postagem nos grupos é frenética. Muita gente enraivecida com  Bolsonaro postando mensagens de insatisfação e apoio ao impeachment. Só que as pessoas não parecem contestar muito o que aconteceria depois ou menos se importar com quem criou o movimento.

A pergunta que eu fiz em todos os grupos que eu entrei (no WhatsApp e no Telegram) organizados pelo movimento seguiu sem resposta efetiva. Minha preocupação principal é que este movimento compartilha o nome com uma hashtag impulsionada (criada?) por ninguém menos que Luciano Huck que, ao que tudo indica, está arrependido depois de ter declarado voto em Bolsonaro em 2018.

Acho que é plenamente válido e importante que as pessoas se arrependam, mas me assusta de forma grave este fato porque o Luciano Huck tem pretensões políticas.

Nesse sentido, quando apareceu este movimento “Brasil Sufocado”, segui com o objetivo de perguntar quem estava conduzindo a organização.

Nos grupos a mensagem a seguir são ostensivamente divulgadas, veja:

Perguntei em 5 grupos administrados pelo movimento dos quais participo e não recebi respostas efetivas. Por isso, estou preocupado. Torno públicas mensagens que mandei nos grupos. Acho que quanto mais pessoas abrirem os olhos com relação a estes movimentos, melhor.

Eu estou desconfiando cada vez mais. 

Até agora não sabemos quem está por trás deste movimento “Brasil Sufocado”. Pode ser algo tão ruim como Bolsonaro. Pensem que pode ser o Ciro, o Doria ou o Huck…

A gente precisa de uma alternativa viável; um programa; algo coerente.

Apenas ficarmos reclamando e pedindo a cabeça do Bolsonaro não vai nos levar a lugar nenhum.

Por isso contesto essa ideia de elogiar o traidor Ciro ou o péssimo Doria (que se elegeu com o “BolsoDoria”).

O Huck e Moro que se colocam como candidatos são péssimos também. Apoiaram Bolsonaro!!!

Por isso a gente não pode ficar apenas “contra tudo o que está aí”, sabe???

Se a gente ficar aqui apenas com raiva e querendo a saída de Bolsonaro, outro igual a ele (ou pior) ocupará o lugar.

A saída de Bolsonaro é necessária. Mas sem um projeto, com algo consistente, para substituir, não sairemos do lugar.

Apenas fazer gritaria, carreata e panelaço não adianta. Se a gente fizer isso sem olharmos pra frente, um Ciro, um Doria ou um Huck vão ocupar o lugar. Estes são tão ou mais perigosos do que Bolsonaro (porque são tão maldosos quanto, mas não são burros). Por isso precisamos de algo mais consistente!!!

Pensem nisso!

impeachment por impeachment vai dar apenas em desastre!!! Temos que ter algo mais consistente!!!

Além que querer saber quem são os organizadores desse movimento, me preocupa que há uma série de números que não são do Brasil nos grupos. Há nos grupos uma narrativa de que o importante, agora, é tirar Bolsonaro do poder. Aí depois a gente vê. Isso é complicadíssimo pois foi exatamente este tipo de comportamento que nos colocou onde estamos agora.

Há também uma preocupação enorme com essa ideia de que o movimento não está ligado a partidos políticos. O MBL nos mostra bem o caminho que isso tende a tomar. Ou seja: por demais preocupante.

Outra coisa que me chama a atenção é essa necessidade de pegar dados de pessoas (nomes, CPF, e-mail) para assinar um manifesto contra Bolsonaro. Sabendo que a efetividade destes abaixo-assinados é nula, penso que a existência acaba sendo única e exclusivamente a montagem de um mailing para propaganda política direcionada posterior.

Enfim. O movimento parece estar crescendo. Em poucos dias o grupo de Telegram tem quase mil participantes. Os grupos de WhatsApp que entrei somavam mais de mil participantes também.

Outras pessoas parecem ter a mesma preocupação que eu. Fui procurado por pelo menos cinco outros usuários em mensagens privadas onde contestavam as mesmas questões que eu.

Estou postando isso aqui (desculpem a falta de organização) para documentar parte do processo e ver se alguma pessoa que eventualmente cair aqui possa dar mais informações.

UPDATE (19/01)

Os grupos cresceram muito. Novos administradores foram adicionados. Os grupos foram fechados para postagem dos participantes. Apenas administradores podem postar. Há um aviso de uma janela de abertura para as pessoas poderem interagir. As regras fixadas Dao pistas interessantes, veja:

🚨🚨🚨 *REGRAS*

Bom dia, gente, tudo bem? Estamos reorganizando os grupos e iremos abrir hoje das 18h às 21h para trocas. Eu sou a Ju, sou uma das admins novas desse grupo aqui e tô vindo colocar algumas regras:

▪️O objetivo dos grupos é *o impeachment de Bolsonaro*. Estamos aqui para nos organizar, compartilhar e fomentar protestos que surjam nesse sentido. 🔴 *Quem mandar muito spam desviando do assunto será retirado. Quem mandar muito spam de figurinha também* 🔴

▪️Somos um *movimento suprapartidário* de cidadãos indignados com o assassinato de brasileiros por esse governo da morte. Não somos financiados por nenhum grupo, não somos o MBL, não somos o Luciano Huck, não vamos lançar candidato pra 2022 *e nem estamos interessados em discutir 2022 nesse momento porque tem milhares de pessoas morrendo AGORA. FORA BOLSONARO*

▪️*Movimento suprapartidário* = vai ter direita, esquerda, neutros, apartidários, evangélico, ateu, umbandista, jogador de bocha, gente que fala bolacha em vez de biscoito, gente que toma açaí com leite ninho… *só não vai ter bolsominion*. Se você não quer se juntar aos diferentes, sai e organiza um grupo FORA BOLSONARO com seus amigos. 🔴 *Se ficar tretando que tem gente no grupo que pensa diferente de vc, será retirado* 🔴

▪️Por motivos de segurança, *não vamos passar a nossa identidade individual*. Não vai ter foto de agora, não vai ter CPF, não vai ter @ de Tinder. Já estamos recebendo várias ameaças de minions, mesmo com essas precauções. *Se você não concorda com isso, pode ficar à vontade para sair do grupo* (e por favor, monte movimentos FORA BOLSONARO com seus amigos. Não é porque não vai ficar que precisa desistir da luta). 🔴 *Quem for ficar enchendo o saco questionando a nossa identidade será retirado* 🔴.

▪️*Fiquem em um grupo só*. 🔴 Gente em mais de um grupo será retirada das vagas a mais 🔴

▪️Por enquanto, estamos divulgando carreatas e ajudando a direcionar galera pra campanhas online e panelaços. *Manda pra gente tudo que souber*. 🔴 Estamos com planos pra campanhas FORA BOLSONARO específicas também, e iremos lançá-las entre janeiro e fevereiro. *Contamos com a mobilização de todas e todos* 🔴

🗣️🗣️🗣️ *FORA BOLSONARO MILICIANO GENOCIDA SAFADO* 🗣️🗣️🗣️

Quando os grupos foram abertos para a interação ao final da tarde de hoje, um vídeo foi postado pelos moderadores. Muito bem produzido, com narração profissional e tudo o mais. A narrativa do vídeo associa Bolsonaro aos regimes mais autoritários e sanguinolentos da história mundial. Há trechos em que se vê alusões ao regime ditatorial militar pelo qual passamos e os ataques a imprensa são destacados. O video termina com a assinatura do movimento.

Respondi as postagens do vídeo com algumas observações:

Vídeo muito bem produzido. Parabéns.

Foi feito por voluntários? Pergunto porque ficou muito bacana mesmo. 

Parece até… que alguém pagou para fazer. 

Parece que quem fez tem muito conhecimento. Parabéns!

Sendo feito por voluntários, acho que é bacana valorizar o trabalho das pessoas envolvidas e divulgar. Assim esta peça vira uma vitrine para estes profissionais.

Agora, se alguém bancou esta produção, isso é facultativo. Os talentos que fizeram a produção já foram recompensados com o $$

Tendo a concordar com o que foi falado acima, sobre o grupo ser suprapartidário, ao ver este vídeo…

Temos que trabalhar para Bolsonaro não se reeleger e nem que alguém apoiado por ele vença as próximas eleições. Isso é mister.

E, nesse sentido…. vendo este vídeo que poderia muito bem estar no intervalo do JN (novamente meus parabéns a quem fez)… fico cada vez mais reticente em acreditar que este movimento seja suprapartidário…

Acho que para que a esquerda se una de verdade as coisas precisam ser mais transparentes e claras.

Por este motivo fico reticente e desconfiante de MBL, Doria, Ciro e Huck. Eles podem querer a derrubada de Bolsonaro, mas não são esquerda. Pelo contrário. Eles o apoiaram e ajudaram Bolsonaro a se eleger.

Por isso a pulga insiste em continuar atrás da orelha…

Sabe o que também era suprapartidário? Este movimento aqui desta imagem… 👆👆👆

Então, vendo este vídeo super profissional, eu tenho que perguntar se alguém / alguma organização pagou por sua produção, sabe?

Pra evitar que mais gente se transforme em meme como o rapaz acima. E que o país não vá para um buraco ainda mais fundo.

Obviamente a próxima coisa que aconteceu foi eu ser expulso do grupo. Foi interessante. Deu para ver que há uma movimentação intensa em formação e só espero que as pessoas não se deixem enganar desta vez.

O bagulho mais fedido que o Brasil já produziu

Ontem o perfil do Guaraná Antarctica postou o que deveria ser mais uma das infindáveis mensagens engraçadinhas de empresas em plataformas sociais. A postagem chegou em meu feed pela Liliane Ferrari, que, lucidamente, também se opõe a este tipo de postura. A postagem era esta, abaixo.

De mal gosto extremo e falta de tato.

Parece haver uma demanda infinita por piadinhas e postagens que viralizam. Comunicação em plataformas digitais passa longe disso. A ideia de criar conexões deve ir além de fazer piadas 24/7. Fica chato, enfadonho e é muito mais fácil errar a mão, como no caso acima.

Mas sem problemas. Graças às características da própria rede a gente dá um jeito e faz os ajustes necessários.

There, I fixed it:

Acho que ficou melhor.

Uma ideia para tentar combater a desinformação

Hoje pela manhã vi este post do Atila Iamarino no Twitter:

O Atila tem sofrido bastante na batalha contra a desinformação e senti nesta postagem dele um tom de desânimo.

Não jogue a toalha, Átila! A questão é complicada. Mas, graças a esforços como o seu, aos poucos, mais pessoas vão se juntando e o combate contra a desinformação cresce a cada dia. Não é o suficiente, é claro; nem tampouco a única coisa a fazer para minimizar os impactos das ações de desinformação. Para que isso funcione a contento, precisamos que as próprias plataformas sociais comprem a questão de verdade. Só que isso está longe de acontecer.

Para tanto, vamos tentar compreender melhor um cenário mais amplo, que acaba colaborando para este crescimento e o sucesso das ações de desinformação. 

I – O modelo de negócio

As plataformas sociais como o Facebook e o Twitter têm o seu sustento na venda de publicidade. Tal qual na mídia de massa, quanto maior a audiência, maiores os investimentos em publicidade. Nesse sentido, uma coisa precisamos considerar: estas plataformas não têm um interesse genuíno em acabar com a desinformação, com os robô e com os perfis falsos. Quanto mais robôs, maiores serão os números que os departamentos comerciais das plataformas mostram para os anunciantes na dança da venda de espaços publicitários. 

Dessa forma, as plataformas apenas atuam de maneira meio-efetiva com relação aos robôs e perfis falsos quando algo muito grave aparece. Do contrário, é uma política bem conhecida: a de se fazer “vista grossa”. As plataformas fingem quem não enxergam o que está na cara.

II – Números inflados ajudam a fazer a máquina funcionar

Você pode se perguntar o que – além de ajudar a argumentar sobre a venda de publicidade – pode ser benéfico para as plataformas nessa atitude. Uma possível explicação é a de que os perfis falsos / as fazendas de robôs e correlatos acabam alimentando uma coisa que cresce com a nossa participação. As pessoas médias / normais não identificam de cara quando uma discussão é artificial, quando uma hashtag está sendo manipulada ou quando há uma fazenda de robôs em ação. A gente vai lá e interage com eles. 

A gente responde. A gente discute, enfim… A gente acaba fazendo o que estes perfis falsos publicam reverberar junto aos nossos seguidores. E isso faz com que o assunto vire pauta. E, ao virar pauta de discussão, a “máquina” ou o conjunto de algoritmos que fazem as plataformas funcionarem como elas funcionam, acabam por entender que aquilo é interessante. E aí vão mostrar aquilo para mais e mais pessoas. Ao fazerem isso, mais e mais publicidade acaba sendo exibida e, lógico, as plataformas faturam. 

Então, as plataformas acabam por fingirem que o problema não existe, pois isso as beneficia. E esse é o ponto que me ajuda a dar uma conclusão ao argumento de que as plataformas não querem que este cenário mude. 

Se assim fosse (ou seja: se as plataformas quisessem atuar de maneira clara e objetiva para mitigar a desinformação), uma coisa a fazer seria atestar que não pudessem ser criados perfis falsos / fantasiosos ou com pseudônimos. 

III – Plataformas sociais não precisam ser o lugar do anonimato

A argumentação de que algumas pessoas precisam de pseudônimos não convence porque estas plataformas não foram feitas para isso. Se alguém precisa vazar algum tipo de informação que vai colocá-la em risco por fazer isso, há uma série de outros espaços para fazê-lo. O Twitter não seria o lugar disso. Acaba sendo porque qualquer um pode criar uma conta com um pseudônimo e publicar o que quer. 

Perceba. Minha questão não é com o fato de a gente poder publicar o que quiser. Isso é muito bacana nas plataformas sociais. O problema é isso conjugado com a possibilidade de criarmos múltiplas contas. Dessa forma uma pessoa pode, por exemplo, criar um perfil falso e difamar outra pessoa. A conjugação de um ambiente de criação de perfis livre e a possibilidade de podermos falar o que quisermos abre flancos para este (e outros) tipo de abuso.

Obviamente há modos de chegar até estas pessoas. Mas isso é moroso e em boa parte das vezes as pessoas que são vítimas de uma ação de difamação nem levam o processo adiante. Isso proporciona uma sensação de impunidade para quem comete tais atos. De igual forma para as pessoas que criam ações coordenadas de desinformação. O processo para chegar até elas e responsabilizá-las por suas atitudes é moroso e não costuma dar muito efeito. É como enxugar gelo. 

Aí, o cenário que se constrói é o de que as plataformas são terra sem lei. Isso acaba por encorajar pessoas a trabalharem com a desinformação mesmo em perfis que sejam verificados, como vemos com alguns parlamentares e ocupantes de cargos do poder executivo em nosso país. A coisa vira uma bola de neve. Entendo que uma maneira efetiva de tentar minimizar isso seria as plataformas identificarem verdadeiramente quem é o dono de cada perfil. Isso faria o processo de responsabilizar pessoas que cometem atos de difamação e disseminam desinformação mais fácil. Por consequência seria mais eficiente para proporcionar punição.

Só que a gente acaba por associar a questão da liberdade de expressão com isso de criarmos perfis falsos / pseudônimos. Uma coisa não tem muito a ver com a outra. A possibilidade de criarmos pseudônimos dá a cada pessoa o ferramental para criar, digamos milhares de contas falsas e manipular hashtags. A operação de fazendas de bots é corriqueira e muito danosa.

E isso nada tem a ver com a questão da liberdade de expressão. A gente pode ter a liberdade de expressão mesmo com mecanismos de identificação apropriados em operação. Repito: se você precisa tornar públicos fatos / informações / dados que, se o fizer identificando-se de forma apropriada isso pode te prejudicar ou prejudicar pessoas de sua família, o Twitter não seria o melhor lugar para fazê-lo. 

Acontece que, como disse lá no começo, a possibilidade de uma única pessoa criar dez, cem ou mil contas falsas é benéfico para a plataforma, que pode trabalhar estes números em suas argumentações de venda de espaços publicitários. Ademais, quando estas fazendas entram em ação, os diferentes algoritmos que operam nas plataformas usam as postagens para movimentar o espaço.

Para (tentar) concluir

Há algum tempo tenho argumentado que, embora estas plataformas de mídia social sejam privadas, elas acabaram sendo escolhidas pela sociedade e se transformaram em espaço de discussão pública. O Twitter, por exemplo, é observado continuamente e as reações que são enxergadas na plataforma acabam por pautar ações que impactam nas vidas de todas as pessoas. Um exemplo claro disso é o recente bate-e-volta de João Dória a Miami. Sua ida à cidade gerou tal celeuma (ostensivamente comentada na plataforma) que ele acabou por cancelar sua folga e voltar para o Brasil. 

Ou seja: embora nem todo mundo esteja no Twitter, o que acontece ali reverbera enormemente. A conversa que ocorre ali é relevante para tomadores de decisão. 

E, por mais que importantes pesquisadores do assunto tenham argumentado que as características destas plataformas não as qualificam para que as tratemos como esferas públicas de discussão, elas foram adotadas e são utilizadas como tal não obstante suas limitações.

Nesse sentido, entendo que elas precisam ser tratadas como algo que transcende um empreendimento privado para exibição de publicidade. Esta plataforma em questão (o Twitter) é uma adaptação da ágora. A conversa social acontece ali. Só que, quando a gente tem perfis falsos (entendendo aqui que estes são semelhantes, visto que não é possível identificar quem é a pessoa por trás de perfis que usam pseudônimos para, por exemplo, responsabiliza-las por suas postagens) na dinâmica da conversa, como saber se esta conversa não está sendo manipulada / artificialmente conduzida? E, se essa conversa acaba direcionando ações que impactam nas vidas de todos, aí a coisa fica séria.

Entende onde quero chegar? As plataformas se fingem de sonsas e as raposas aproveitam. Quem perde somos nós, nosso país e a democracia. Entendo que uma ação imediata e necessária seria a gente ter todo mundo usando perfis que efetivamente nos identifiquem. Quem sabe se a gente conseguir ter apenas, digamos, um perfil por CPF ou por CNPJ a gente consegue melhorar a dinâmica do que acontece nas plataformas?

Plataformas como câmaras de eco

Devemos revisitar sempre e refletir sobre as plataformas sociais como “câmaras de eco. Estes espaços estão funcionando cada vez mais como lugares em que falamos para nós mesmos ou para aqueles que pensam como nós.

E, embora estejamos falando muito mais aqui (e em outras plataformas), estamos dialogando cada vez menos. A própria dinâmica e natureza das plataformas incentivam isso. Postamos mais e conversamos menos. Não há benefícios nisso para os usuários.

Diálogos e relacionamentos não são construídos. Apenas rolamos telas e manifestamos apoio aos com os quais concordamos com RTs e corações. As ações não ultrapassam este espaço e não se materializam.

Estudar e observar o que acontece aqui também é um desafio ourobouros. Ficar olhando trending topics (que são altamente manipuláveis, já sabemos) e mapear redes parece ter pouco efeito.

Ver ligações e mapear redes em um sistema onde as postagens não são efetivamente mostradas para os usuários da rede me parece um esforço vazio. As plataformas estão demonstrando existir (mais e mais) apenas para publicidade.

Isso é algo que vem amadurecendo dentro da minha cabeça há alguns anos. Em 2018 e 2019 publiquei diferentes reflexões sobre o assunto. Para o próximo ano, mudanças na forma de olhar as coisas e, principalmente, na forma de usar as coisas. Redução ainda maior de uso de plataformas sociais.

Faxinando

Depois de um tempo matutando, resolvi implementar umas mudanças substanciais em minha presença digital. Isso terá impacto aqui neste espaço.

É que eu estava com 7 domínios diferentes para colocar todas as coisas que se referem às minhas atividades neste lindo rincão digital que é a internet. Resolvi agora concentrar tudo aqui, neste único site.

O quê isso quer dizer, na prática?

Em termos práticos, o que vai acontecer é que você vai encontrar em /asn a minha cópia do que foi o seu podcast predileto sobre comunicação digital e no /pos estão as informações sobre o curso de especialização que coordeno no IEC / PUC Minas (diga-se, com inscrições abertas para a 13ª oferta!).

De igual forma, o site da REDE passa a ocupar o endereço /rede e o arquivo da revista de Design de Interação, meu livreto e as videoaulas sobre o assunto ficam em /di.

Ou seja: o .cc volta a ser como foi lá no começo de sua existência, no longínquo 2001: o único site onde você encontra tudo (como se fosse muita coisa) sobre o Caio Cesar.

Estou organizando as coisas aqui em termos de widgets e menus, mas todos os sites já estão operacionais e com os devidos redirecionamentos funcionando.

Canais de notícias que transmitem ao vivo no YouTube

Nem sempre assinar o “ao vivo” do YouTube vai te proporcionar acesso a canais de TV (especialmente canais de notícias) que transmitam ao vivo, graças à manipulação algorítmica da plataforma. Nesse sentido, preparei um post com links para canais de notícias que transmitem ao vivo pelo YouTube.

A lista, claro, deve ser muito maior. Estes são os que assisto, de quando em vez. Uso e recomendo, tanto para observar notícias a partir de lentes diferentes das que estamos acostumados quanto para treinar a capacidade de audição em outros idiomas e com diferentes sotaques.

Se você souber de algum canal que não esteja nesta lista, sinta-se livre para deixar seu comentário com a recomendação!

Poxa, Microsoft. Me ajude a te ajudar

Quem está usando o Microsoft Teams certamente já se deparou com a situação de chegar um convite para uma reunião sem maiores explicações. Veja abaixo o que chegou em minha caixa de entrada.

Se você está por dentro da data e dos detalhes da reunião, tudo bem. Mas se você não está lembrando bem do horário, do dia, ou se alguém envolvido na reunião ainda não lhe disse nada, esqueça. Você vai ficar no escuro com relação a qualquer detalhe.

Se você quiser ver algum detalhe da reunião e decidir obter esta informação clicando em um dos links da mensagem, vai se dar mal. O primeiro link (clique aqui para ingressar na reunião) leva para uma tela de reunião, claro. Só que esta tela não tem qualquer detalhe de data e hora. É o link que a pessoa deve clicar na hora da reunião para já entrar na sala onde as pessoas estarão reunidas. O segundo link (saiba mais) te leva para um KB da Microsoft. Nada relacionado a reunião em si. O terceiro link (opções de reunião) é acessível apenas quando você é o dono da reunião.

Ou seja. Quem recebe uma mensagem como esta que eu recebi, fica perdidinho da Silva. Para saber de algum detalhe da reunião, quem se interessar pode arriscar e clicar duas vezes no anexo estranho que veio na mensagem. Aí sim… Esta corajosa alma será surpreendida com uma entrada de calendário. Meio escondido, né?

O ideal é que no corpo do email de convite enviado constasse quem foi a pessoa que criou a reunião, o titulo da reunião e as informações de data e de hora de realização da reunião. Seria bacana colocar também a lista de pessoas chamadas. Assim quem recebe vai poder se localizar melhor.

Como é bem pouco provável que a Microsoft faça alguma coisa para resolver isso, minha recomendação é para que as pessoas que criam as reuniões no Teams coloquem descrições efetivas e incluam dados de data e hora no corpo da descrição da tela lá no Teams. Isso ajuda um pouco quem recebe os convites. Tipo assim:

Titulo: Reunião do dia 06/11/2020 às 15:00
Descrição: Vamos conversar sobre o projeto X.
Convidados: Caio, Maria, Pedro, João, Manoela.

Estas informações podem ajudar muito todos que recebem o convite.

Tempo Hábil

Se você ainda não escutou, peço que escute o podcast Tempo Hábil, produzido pela jornalista Jessica Almeida, para o Jornal O Tempo.

É uma excelente produção. A série sobre as eleições municipais de BH está primorosa. Acabo de ouvir a edição sobre as eleições de BH em 2008 e me lembrei deste texto que escrevi à época.

Eu te garanto que, depois de ouvir, você vai avaliar esta produção muito positivamente em qualquer que seja o app que você usa para ouvir podcasts e divulgar, como estou divulgando agora. Produção excelente e que merece todos os méritos.